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quinta-feira, 30 de junho de 2022

O NÓ

 



entre a leira dos dias 
os ermos do corpo
banhado de calores
sobre o leito vazio
há o espasmo da noite
que me contorce os sentidos 
na lembrança, os desejos 
que eu persigo...

o peitoral onde eram
estendidos os meus cabelos
o cheiro, os lábios, e a mão 
pra desatar o nó dessa secura, 
esquecer, eu juro
não consigo!

Maria Lucia (Centelha) 


segunda-feira, 27 de junho de 2022

PRESENTE

 



entreaberta a janela

me entrega o presente

na manhã 

um campo fresco, orvalhado

a luzir de vida

festa na retina 

não importa 

a noite passada sem estrela

a madrugada lenta

com seus coaxos e zumbidos

embutidos nela


Maria Lucia ( Centelha) 


quinta-feira, 23 de junho de 2022

AMOR E DESEJO




na aspiração de amar
vou inventando 
umas cumplicidades
e suas doçuras
uns momentos 
de respiração suspensa
sem os sobressaltos 
tantos...
já pra confundir, de súbito 
irrompe das entranhas
um desejo vadio
corcel sem freios
no cio pro coito
babando sem pudor 
e se me apresenta:
- muito prazer, sou o amor!


Maria Lucia (Centelha) 



segunda-feira, 20 de junho de 2022

PRESENÇA




quem haverá 
de percebê-la
no ritmo invisível
do som
em cada canto
em cada eira
mágica
inefável 
no grito
ou sussurro
do belo e no bem
na dor alheia
misteriosamente 
nela refletidos?

no seu modo leve 
da partilha
a se desmanchar 
sem lamuria
e sem ruído 
na alma inquieta
de sabê-la sútil
quando fica
até mesmo depois 
de haver partido?



Maria Lucia ( Centelha)


sexta-feira, 17 de junho de 2022

VENTO DO LADO NORTE




ao  vento 
que vem de longe
de um ponto do lado norte
eu imploro - vem devagar
não converta a sua aragem
em apressado vendaval
soprando forte
sou feita de fogo, lascívia 
e tessitura abrasada 
à flor-da-pele
sua língua ventania
pode despertar 
surdida vontade
que começa com um beijo
e depois, bem...
depois termina na saudade.

Maria Lucia ( Centelha)






quarta-feira, 15 de junho de 2022

Homenagem aos Santos Populares

 



O  poeta Juvenal Nunes convidou 

e prontamente aceitei com alegria, 

lá do Blog 

https://palavrasaladas1952.blogspot.com/2022/06/aos-santos-populares-o-mes-de-junho-e-o.html




Mês de Junho, tradição
devoção de tanta gente
um santo do coração
Santo Antônio vem na frente
no olhar de Sao João, a luz 
ao cumprir a lei do amor
com seriedade e rigor
batiza o Senhor Jesus
pra São Pedro a missão
que o mestre tanto almeja: 
- "Tu és pedra e sobre ti
edificarei minha igreja"!


Maria Lucia ( Centelha)


sábado, 11 de junho de 2022

HÁ UM FIO






Há um fio tênue 
que nasce aqui
natural, água de fonte
medula que germina
e se alonga 
pra algum lugar
pra fluir um verso
 não se sabe aonde...

se mantém, ainda, capaz 
de independer 
de coisa alguma 
que o ignore 
nesse tempo adverso...

corre liso e preciso 
por rota obscura
onde não há nenhuma luz
que o ampare
mas é como se houvesse...

por isso, continua na procura
antes que a indiferença 
o devore...

Maria Lucia (Centelha)












 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

ENCANTO PROFUNDO





nas palavras 
a paixao comanda os versos
e determina
pra onde os deseja levar
sob a sua tutela...

a estrofe 
não delimita a labareda
ávida por incendiar o destino
como faria a uma folha 
de papel-de-seda ...

o encanto profundo
que tem o amor
o poema
não revela.

Maria Lucia ( Centelha)

quinta-feira, 2 de junho de 2022

OFÍCIO

 





precisa, fugaz

um solfejo

    que ao silencio invade 

ventania dobrando o dia

mistério d'água a fluir livremente 

desde a nascente

morde a palavra quem diria

sem nenhum artifício

 e o poema se levanta

pra cumprir o seu ofício

de sussurrante haicai 

que entorna o verso

e logo vai...


Maria Lucia (Centelha)

 




segunda-feira, 30 de maio de 2022

ONDE ENCONTRAR A POESIA?

 


Eu a procuro
polinizada dos instantes
prenhe de choques sutis
na palavra altissonante
airada nos cumes envernizados 
das academias
mas, vejo-a dona de si se elevando
e
       d
       e
       s
       c
       e
       n
       d
       o livre 
dos grilhões, na mão 
calosa de carpir quintais 
da alma
perfumada de inocência
ou cambaleante 
no hálito da embriagues
na fala mansa e jovial
do ancião 
no ímpeto do jovem ao sonhar
"guardada nas palavras"

experimento do seu sabor 
aroma e a textura
quando emerge das dobras 
do avental da cozinheira 
que ao cantar leva as palavras
ao fogo brando
para servi-la depois, à mesa.

Maria Lucia ( Centelha)

"Guardada nas palavras" , Manoel de Barros.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

RENDIÇÃO

 


porque é no desalinho
exato ponto onde ela se encontra
aquele que lhe fende a aorta
de modo tão perfeito
tão ardente
tão revelador...
não há rezas que chegue
ladainhas
fremente rogo
entre ranger de dentes
não tem mais jeito
é a favor do amor bebido
do início ao fim de um só fôlego

que mais importa ?

Maria Lucia (Centelha)



segunda-feira, 23 de maio de 2022

SEMENTES





flutuam despretensiosamente

do meu próprio excesso

a desabrochar arrepios 

à flor da pele, 

sementes

com ímpetos 

de que um doce vento as leve

pra algum lugar

alguma parte

onde a poesia

seja ar

vida

pulsação.


Maria Lucia ( Centelha)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

POEMA MAGOADO



de tudo 
o que julga saber
nas suas equações 
de direção e chegada
não atina com nada
ou do porquê
desse seu grito engasgado
são coisas 
que traz a morte
igual um sentimento 
embargado
mas, ainda, 
dá vezo à teimosia 
de buscar em perfeitas frestas 
uma palavra que floresça
leve, breve  entre os versos
do seu poema magoado...


Maria Lucia (Centelha) 









terça-feira, 10 de maio de 2022

POEMA ERRANTE




lá vai um poema errante
se embrenhar pela transparência
não lhe adorna o mistério
nem a prolixa flor da linguagem
menos o malabarismo 
de sentido dúbio...

se um ou outro vocábulo
escapa do contexto e expõe sangrias 
as palavras arfam
sofrem anseios por um lirismo
que bem longe dista
por essa razão, se desdobra
busca por uma retina
capaz de lhe emprestar
alguma poesia...

enquanto poema sem rumo
subsiste inconcluso e disperso 
por que nada mais lhe sobra
que ser ele mesmo: 
- absorto e inverso.


 
Maria Lucia (Centelha)




 


sexta-feira, 6 de maio de 2022

ABSTRAÇÃO




não fossem os beijos
adivinhados 
(pré) sentidos
para muito além da roupagem
inundando a pele
o estio, talvez, 
prevalecesse...

se motivo nenhum houvesse
para esse arrepio 
que orvalha
aroma de cio 
no verso explicitado
com a cara e a coragem
um seria inventado.
 
Maria Lucia (Centelha)




 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Poetas & Poesia

Comentários poéticos que os  amáveis poetas me deixaram ao poema "UM VERSO SÓ"


Poema de um verso só
coitado, sem companhia
em busca de um afago
de manhã, à tarde...
em todo o dia.

______Mário Margaride






A pérola do Amor é o colar do seu coração

__________Rosélia Bezerra .



Quando o amor é emoção
Não é infértil, nem pó
É sim a força do coração
Em Poema de um verso só

___________ Ryc@rdo



A Maria Lúcia é fascinante
Escreve sempre com o coração
Eu leio-a com uma certa emoção
E chamo-lhe, Bela, e deslumbrante.

___________Cidália Ferreira 






Um único poema 
que buzina, buzina
sai da linha e o outro
não adivinha...

_________ Jose Carlos Sant Anna







Gratidão!

.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

MUDANÇA



Estou de mudança.
Tijolos que me isolavam, cairão
a vidraça que me encarcerava,
ao chão
a luz há de penetrar pelos vãos
dos escombros.
Tudo eu guardava ali, meu pensar
meus devaneios
meus amados
e meus anseios
vistos a olho nu,
lágrimas e risos
emparelhados no mesmo baú.
Escorre de cada detalhe desse teto
sentimentos ambíguos
onde eu os colocava
com o olhar insone
em assomos de choro em secreto...
Na mudança, levo comigo
alguns versos truncados
incompleta poesia
o rolo compressor de herança.
Demolida a antiga moradia
com ela fragmentos meus
e dos dias, os segredos.
Liberto-me, enfim, desse degredo
tenho do que restou o que eu sou.
Nesse ínterim, vou encaixotando
pra mudança
o resumo intacto
de tudo o que mais versejei
dentro de mim...

Maria Lucia ( Centelha )

quarta-feira, 27 de abril de 2022

UM VERSO SÓ

 



O poema de um verso só
irrompeu um desatinado "eu  te amo"
com a força que em mim cabia.

No cerne da palavra o amor
centelha que refulgia

ganhou o afago de um beijo e voou
para além da linha!

Maria Lucia ( Centelha) 


                   

segunda-feira, 25 de abril de 2022

DESASSOSSEGO DO POETA

 


Queria te compreender a alma, poeta. Conhecer a desmedida ânsia de amar em que te moves. Vislumbrar, ao menos, o mundo onde habita a tua alma inquieta. Pudesse humanizar o divino que existe em tua veia pulsante, trazer-te para o chão um só instante, para ouvir de perto a cítara que vibra em teu coração.

Sondar-te-ia os arcanos insondáveis no sagrado momento em que recolhes do cotidiano os rastros de sorrisos e de lágrimas, retalhos anônimos de faces sem nomes, pra compor os teus poemas canções, por que me parece que pressinto ondas de emoção que carregas em segredo, misto de prazer e medo sob o véu do teu aconchego...

Escravo e senhor, dominado e dominador, assim é, o teu universo em desassossego, poesia destravada, de incoerência e paixão, labareda atirada à esmo, capaz de incendiar o mundo de fora tão cheio de ti mesmo.

Maria Lucia (Centelha)